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'Doutor Estranho no Multiverso da Loucura' : Sam Raimi explora a face sombria da Marvel e pavimenta o futuro do MCU | 2022

NOTA 9.5

O que tem no chá?

Por Vinícius Martins @cinemarcante 

O universo, como o conhecemos, não é infinito; ele está em expansão, se dilatando exponencialmente e crescendo enquanto você lê estas palavras. O mesmo pode ser dito também sobre o universo cinematográfico Marvel (o famoso MCU), que está em constante crescimento para diversos lados: tem o núcleo urbano (com séries como 'Gavião Arqueiro', por exemplo,  além das recém canônicas 'Demolidor' e 'Jessica Jones', que migraram do catálogo da Netflix), tem o núcleo terrestre ('Viúva Negra' e 'Falcão e o Soldado Invernal', que demandam uma escala global), o núcleo galáctico ('Guardiões da Galáxia' e 'Eternos', esse último com um evento de extinção gigantesco), o núcleo cósmico e místico ('WandaVision' e 'Doutor Estranho', de 2016) e o núcleo paralelo, que é onde entra a série 'Loki' e o novo filme do estúdio, 'Doutor Estranho no Multiverso da Loucura'. A grande questão é: como dar valor e importância aos eventos "menores" quando há problemas colossais a serem resolvidos? Nesse ponto nota-se uma inclinação ao desinteresse em obras menores e uma ambição voltada ao princípio do "mais e melhor" sempre. Mas será que isso funciona? Será esse o futuro do MCU?

'Multiverso da Loucura' é uma amostra ambiciosa (embora em grande parte formulaica) do futuro da Marvel e do universo que vem construindo ao longo de 14 anos. Nota-se, nessa nova fase pós 'Vingadores: Ultimato' (2019), que vem sendo dada uma liberdade maior aos diretores, com uma licença permissiva para desenvolverem trabalhos mais autorais - isso principalmente após o sucesso de 'Thor: Ragnarok' (2017), onde o diretor e roteirista Taika Waititi remodelou o protagonista e deu um tom mais vibrante às tramas épicas e trágicas dos filmes anteriores. Vimos Chloe Zhao e seu lirismo aflorado em 'Eternos' (2021) e vemos agora Sam Raimi e sua veia para o terror no novo filme solo do Doutor Estranho, onde aventura, ação, horror e a clássica comédia da fórmula Marvel são elevados a uma potência absurda. O que vemos aqui são sequências pirotécnicas muito bem elaboradas, e um senso criativo que rende, inclusive, um dos combates mais engenhosos e criativos de todo o universo cinematográfico Marvel, onde dois extremos duelam em um sincronismo sinfônico. Tudo no filme parece ter uma amplitude exacerbada.

Um dos grandes triunfos do filme é a sua capacidade de ser sucinto. Não há barrigas sobrando no roteiro, e essa peneira de conteúdo fez com que o filme, que tem duas horas de duração, parecesse ter mais coisas e ser inclusive mais longo do que o grande sucesso anterior do estúdio, 'Homem-Aranha Sem Volta Para Casa' (2021), que tem 2h40 de duração. O tempo de tela de cada personagem é preciso, como se o recorte final do filme tivesse sido feito com um bisturi e esse fosse o resultado de um corte cirúrgico na sala de edição. Contudo, apesar de excelente, ficou a impressão incômoda de que algo faltou. Talvez seja o uso excessivo da fórmula Marvel, que já está ficando desgastada há algum tempo, ou talvez seja somente o padrão de franquia, que exige sempre mais e mais de seu público e lança conexões para um futuro que nunca sabemos quando chegará e gera uma inevitável sensação de que a obra está incompleta. É como a montagem de um mosaico gigantesco onde peças criadas por diferentes artistas são feitas cada uma ao seu modo e, juntas, formam a imagem final; entretanto, caso o espectador não tenha visto tudo que veio antes da peça agora apresentada, o que fica é a impressão de que o quadro está incompleto. Para entender o novo filme é necessário ter visto pelo menos meia dúzia de outros filmes e uma série de streaming para absorvê-lo, e isso gera um desgaste frustrante em quem não está atualizado. Mesmo apesar do caráter episódico dos filmes do MCU, existe o contexto maior que acaba impedindo que as obras se bastem em si mesmas; isso consegue ser, ao mesmo tempo, muito bom e muito ruim, variando de pessoa para pessoa.

Em todo caso, 'Doutor Estranho no Multiverso da Loucura' tem uma pegada mais autoral que vale a pena ser conferida na maior tela possível, com um belíssimo uso do 3D e a arquibancada cheia para aplaudir, se assustar e suspirar junta enquanto o universo Marvel se expande cada vez mais. E fechando o meu primeiro comentário sobre a obra, cito o pensador popular contemporâneo Luciano Huck, dizendo: "Loucura, Loucura, loucura".


Super Vale Ver!


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