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'Como Matar a Besta' : a diretora Agustina San Martin debuta com uma atmosfera sombria e provocante | 2022

NOTA 6.0

Por Maurício Stertz @outrocinéfilo 

A introspecção pela grande tela é um caminho sem volta, diriam os teóricos que levantam suas bandeiras em reverência ao movimento chamado Slow Cinema. É que da cadência dos planos surgem as inúmeras válvulas de escape, os espaços para a reflexão. É nossa tarefa, portanto, espectadores imóveis e suscetíveis a acreditar, criar significados e conexões, aproveitando-se destes espaços para deixar a mente divagar. Assim, estes filmes ‘formalistas’, que, grosso modo, trata da ‘forma de contar’ uma história através do que nos é mostrado em tela, permitem uma participação mais ativa do espectador.

O ritmo, por sinal, é uma das ferramentas utilizadas pela diretora Agustina San Martin ao debutar no Cinema com seu longa-metragem 'Como Matar a Besta', para criar uma atmosfera única. Aliás, essa produção tem a força motriz em três países fronteiriços, o Brasil, a Argentina e o Chile. Alguns atores brasileiros, como João Miguel de 'Estômago' tem suas pequenas participações que inserem pitadas de uma certa brasilidade.

Emília (Tamara Rocca) chega a um vilarejo ao norte da Argentina, próximo à fronteira com o Brasil em busca do irmão. O local abriga a religiosidade, o folclore e um olhar místico de seu povo. Nos primeiros dias, se hospeda na casa de sua tia e parte em uma jornada pelas ruelas do lugar, castigado pela mitológica besta que havia pouco assolado o local com seu mau agouro.

Ciente da intenção de desenvolver essa atmosfera, pela fotografia a diretora antecipa um frescor soturno ao lugar, aproveitando para adiar seus cortes de forma quase teimosa com o intuito de demonstrar todas as texturas de uma composição escurecida. O lugar ganha recortes sombrios, mas igualmente poéticos. Pouco a pouco são inseridos os traços dessa mística que comento, como fragmentos de sonhos (ou pesadelos) ganhassem seus espaços em tela. Tudo é sombrio, assustador, mas igualmente romântico e sensual. 

Tecnicamente, com o enquadramento e a opção da luz, adquire uma  atmosfera quase sensorial que serve à narrativa como um de seus pilares fundamentais, enquanto Emília continua a se encontrar. Exemplos não faltam, seja na narração em Over (quase divina e que contagia algumas imagens estáticas) que recita uma versão de “O Boi da Cara Preta” ou filmar pacientemente os longos chifres do animal contra a lua, enquanto espreita o vilarejo. A procura pelos significados a esta altura está em seu máximo e devo dizer que é desafiador.

E apesar da falta de experiência da diretora, 'Como Matar a Besta' é seguro de sua linguagem e demonstra rapidamente sua intenção. De outro lado, porém, é enfraquecida por sua estrutura textual e resta apenas o gosto amargo do que poderia ter sido.

Advogo sempre por composições ‘falantes’, o famoso “mostrar ao invés de dizer”, que os autores realistas pregavam aos ventos. Mas não depende apenas disso, o fio narrativo é igualmente importante para corroborar com um argumento e pode afundar uma boa intenção estética. Quando a menina não encontra seu irmão, sua jornada vai recebendo camadas de uma vivência superficial, fazendo com que os arcos e suas amplitudes estejam borrados por todo o resto, sendo a jornada, principal condução da história até aqui, desinteressante.

Há de se elogiar a forma sutil de deixar o olhar ser o responsável por um relacionamento entre Emília e Julieth que se inicia ali, numa abordagem calorosa e sutil que faz desse encontro algo belíssimo em seu clímax.

'Como Matar a Besta' é uma produção corajosa pelo que propõe fazer, perdendo no caminho algumas oportunidades, a meu ver, mas que demonstram uma mão habilidosa da argentina Agustina San Martin. Ficaremos atentos a seus próximos trabalhos. 


Vale Ver Mas Nem Tanto! 



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