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Dica do Papo - 'Hair' | 1979

Por Rogério Machado



A lenda Milos Forman faleceu há pouco mais de um mês, aos 86 anos de idade,  e deixou um punhado de obras icônicas e bem sucedidas, não só amadas pela crítica quanto cultuadas pelo público. O diretor Tcheco que fez carreira em hollywood, lançou alguns trabalhos anteriormente, mas foi 'Um Estranho no Ninho' (1975) que o projetou internacionalmente: cinco prêmios Oscar, incluindo melhor filme e melhor diretor. A loucura tomada como metáfora da rebeldia do homem às pressões do sistema sobre suas prerrogativas individuais, é até hoje um dos filmes mais comentados do cineasta, tendo grande parte nisso, a performance brilhante de Jack Nicholson. Mais tarde, em 1984, veio 'Amadeus' , um dos mais aclamados trabalhos do mestre, que também repetiu o feito de levar a estatueta de Melhor Filme no Oscar de 1985.



Mas não estamos aqui pra falar de 'Amadeus' ou 'Um Estranho no Ninho' , e sim de um filme que veio logo em seguida: o musical 'Hair', que ganhou uma versão cinematográfica depois do sucesso na Broadway. Escrito por James Rado e Gerome Ragni e depois na versão para o cinema, roteirizado por Michael Weller, o filme provoca o embate entre o conservadorismo e a contra cultura em reação à entrada dos EUA na Guerra do Vietnã, em 1965.



O longa acompanha a história de Claude (John Savage), um jovem do Oklahoma que foi recrutado para a guerra do Vietnã. Chegando em Nova York, pacato e sem traquejo, ele é "adotado"  por um grupo de hippies comandados por Berger (Treat Williams), que como seus amigos tem conceitos nada convencionais sobre o comportamento social e tenta convencê-lo dos absurdos da atual sociedade. Lá, Claude também se apaixona por Sheila (Beverly D'Angelo), uma jovem proveniente de uma rica família. Na primeira sequência, já somos apresentados à proposta do musical: Bem no meio do Central Park, surgem jovens nova-iorquinos, da mesma faixa etária, mas de estilo contrastante ao de Bukowski. Libertários, esfarrapados, cabeludos, para eles a guerra entre os Estados Unidos e a República do Vietnã, que pesava sobre a realidade, era o próprio descaminho. Perdido na grande cidade o primeiro se aproxima, ao acaso, do grupo de hippies. Segue-se daí um caleidoscópio musical que cada vez mais envolve o jovem de Oklahoma, abrindo a ele a possibilidade de conhecer novos rumos e ideologias. 



Muitos veem Hair como uma expressão do movimento hippie. De fato, o filme registra o modo de vida daqueles jovens, descendentes dos beatniks, que se recusaram a participar da guerra. Seus modos, avessos às regras sociais, assumiam uma atitude política-ideológica, contra a hipocrisia e o consumismo da sociedade estadunidense. Mas mais do que uma obra sobre o movimento hippie, Hair trata do despreparo dos jovens para a guerra. A tropa marchando em direção ao avião que seguirá ao campo de batalha, na cena final, dá um novo sentido ao filme. Na tristeza estampada no semblante dos soldados vemos que toda aquela preparação a que são submetidos não basta, e entendemos que nenhum jovem está realmente preparado para matar ou morrer na guerra.

Embora se baseiem numa só premissa , o filme possui algumas diferenças do musical da Broadway, dentre elas ser muito menos despudorado que a peça original. Mas ainda que não tenha o mesmo impacto que o musical nos palcos,o longa se firma como um protesto contra a guerra, a imposição da sociedade sobre ser e ter, sobre a sexualidade e o preconceito. A canção é quem dá o tom visto na produção, cujo discurso prega o amor livre, a liberação das drogas, entre outros assuntos que envolvem liberdade de expressão. O 'cabelo' do título, é uma inteligente alegoria que representa essa liberdade 'vociferada' através das canções que vão direto ao ponto, que não fazem rodeios, que dizem exatamente o que querem dizer.  Como esquecer as eternas 'Aquarius' (que abre o filme) e 'Let The Sunshine In' - até hoje essas canções ecoam na cultura pop com força total. 



'Papo de Cinemateca - Muito Cinema pra Todo Mundo' 



DIREÇÃO

  • Milos Forman

EQUIPE TÉCNICA

Roteiro: Gerome Ragni, James Rado, Michael Weller
Produção:  Michael Butler, Robert Greenhut, Lester Persky
Música: Galt MacDermot
Fotografia: Richard C. Kratina, Miroslav Ondrícek, Jean Talvin
Edição: Alan Heim, Lynzee Klingman, Stanley Warnow

ELENCO

Annie Golden, Beverly D'Angelo, Don Dacus, Dorsey Wright, John Savage, Treat Williams, Cheryl Barnes, Richard Bright, Nicholas Ray, Charlotte Rae, Miles Chapin, Fern Tailer,Charles Denny,Herman Meckler,Agness Breen,Antonia Rey, George J. Manos, Linda Surh

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